Lula ainda favorito; Flávio, candidato a ser desentranhado

Dada, como reza o que já é um clichê, a fotografia do momento, os bolsonaristas têm motivos para comemorar os números do Datafolha, tornados públicos neste sábado, e de uma penca de outras pesquisas. Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estão empatados. No caso, o senador marcaria 46% das intenções de voto se o segundo turno fosse hoje, e o presidente, 45%. No levantamento do mês passado, a vantagem estava invertida: 43% a 46%. Jogo jogado? Calma, gente boa! Existe um candidato oculto nessa disputa, justamente o que aparece agora na ponta, ainda que na margem de erro. Lula terá de desentranhá-lo.

Um pouco de pessimismo para os que torcem pela vitória do campo progressista e de otimismo para os reacionários? Vamos lá: a distância vem diminuindo progressivamente contra o petista e, no Datafolha, é a primeira vez que Flávio fica numericamente à frente. Vamos inverter agora as respectivas injeções de ânimo e desânimo? O governo está sob intenso bombardeio, seus erros tendem a ser magnificados pela imprensa, e os acertos, subestimados — e até acertos são tratados como erros por razões ideológicas — e, ainda assim, o petista se mostra resiliente.

Mais: há o aluvião do Master e do INSS. Não vou me estender de novo sobre o que já escrevi de sobejo: ainda que seja a Polícia Federal a desbaratar um esquema e outro, a carga negativa recai com mais força sobre o governo porque estimula as tentações “antissistema” e contra o “statu quo”. Se alguém, em algum momento, vislumbrou outra coisa, precisa voltar aos livros de história. A tentação de progressistas de pegar carona na onda anti-STF, por exemplo, não é apenas errada e perigosa: é também inútil. Adiante.

LULA LÁ?
Não faço previsões. Deixo isso para pseudocientistas. Analiso circunstâncias. Lula segue o favorito. Explicarei por quê. Sempre é preciso, claro!, levar em conta a contribuição de todos os enganos e autoenganos. E eles também abundam. Reitero: nem previsão nem antevisão, mas uma análise que busca desentranhar fatos potenciais.

Dá para acrescentar más notícias a Lula nos números divulgados até agora: há empate na margem de erro também nas simulações de segundo turno com Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Nos dois casos, 45% a 42%. É muito pouco provável que a realidade vá fazer esse teste: o desempenho de ambos no primeiro turno é bisonho — 5% e 4%, respectivamente.

O empate também com esses dois pré-candidatos evidencia a força, chamem como lhes parecer melhor, do “antipetismo”, do “antilulismo” ou do “antigovernismo” — cada uma dessas coisas tem acentos distintos, mas, no caso, o resultado é o mesmo.

“Viu como existe a polarização, Reinaldo, que você tanto nega? Até na rejeição: 48% no caso de Lula e 46% no caso de Flávio”. É mesmo? Eleições, embates políticos e guerras a opor progressistas e conservadores (no caso, reacionários) remetem, huuum…, deixem-me ver,  já à “Ilíada”. Não vou apelar a Cícero e a Júlio César de novo. O fato: se a suposta “polarização” houvesse cansado, como querem alguns espertos, haveria candidatos viáveis contra a… “polarização”. Cadê? Não se trata apenas de ter apreço pela história. Também se cuida de um exercício de lógica elementar. Sigamos.

PRECEDENTES
Como sabem os leitores que eventualmente acompanham este escriba, jamais duvidei de duas coisas:
– de que o candidato de Bolsonaro seria um Bolsonaro: acertei;
– de que Flávio logo disputaria a liderança: acertei de novo.
Mais do que Silas Malafaia, observo com uma ponta de humor. A estratégia de Eduardo Bolsonaro venceu o embate no campo reacionário. Como todo fundamentalista, ele atenta muitas vezes contra a própria cidadela. Ao mesmo tempo, na condição de guardador dos arcanos desse reacionarismo, é ele a cuidar da doutrina. E esta é sempre importante na política. A sua aparente insanidade tem método, para lembrar outro clichê ainda válido.

Faço tal observação até como alerta ao campo progressista: inexistem disputas fáceis. Vamos ao símbolo dos símbolos, vindo lá da ancestralidade: não bastou abrir o Mar Vermelho; não bastou fazer chover maná; não bastou evidenciar por eventos maravilhosos que “Aquele que Não Tem Nome” estava com o povo escolhido… Moisés demorou um tantinho para descer do monte, e se fez um Bezerro de Ouro. E o culpado foi Aarão, irmão de guia que passou 40 dias e 40 noites no Sinai. Imaginem… O Deus do Velho Testamento não era bolinho, e Moisés dizia de si mesmo ser “pesado de boca e de língua”. A suposição é a de que fosse gago, tartamudeava. Dado aquele Altíssimo meio irritadiço e chegado a retaliações, a coisa foi trabalhosa (Ilustração: “A Adoração do Bezerro de Ouro”, de Nicolas Poussin).

“Não entendi a referência!” Explico: memo diante das obras, o povo, até quando é ele o eleito, pode fazer escolhas erradas. E não havia ainda redes sociais em “Êxodos”. Comecemos a trajetória de volta aos começos…

O CANDIDATO OCULTO
Existe um candidato oculto nesta disputa. O Flávio Bolsonaro real não é este que tem se apresentado desde o dia 5 de dezembro do ano passado, quando se anunciou ser ele o ungido pelo pai — no caso, o “Messias” deles. Por ora, o que emana de sua candidatura, quando não está apenas entre os seus, é uma soma de fofuras e meiguices. Basta, no entanto, que se sinta entre os iguais, e o falso cordeiro começa a exibir as presas.

Não se escusou de dizer o que pensa, por exemplo, no tal Cepac, o evento dos reaças nos EUA. No dia 28 passado, prometeu as terras raras brasileiras aos EUA, demonstrando, adicionalmente, que oferecia o Brasil e seus recursos naturais a Donald Trump, numa aliança contra a China, nosso principal parceiro comercial. Espantoso!

Em outros tempos, isso ganharia tintas de escândalo na cobertura política da imprensa brasileira. Não hoje. Em regra, ela está ocupada demais com o “delendus STF” — vale dizer: “O Supremo tem de ser destruído” — e não confere a devida relevância ao que disse um pré-candidato que hoje poderia vencer a eleição.

Neste sábado, em evento em Porto Alegre em apoio à candidatura de Luciano Zucco (PL) ao governo do Estado, Flávio disse que vencerá a eleição presidencial e subirá a rampa do Palácio com o pai. Como? E prometeu a anistia aos golpistas. É o mesmo que, em entrevista à Folha, no dia 14 de junho, afirmou que tal solução seria imposta à força ao STF caso o tribunal a considerasse inconstitucional — vale dizer: golpe. Ah, sim: os mais exaltados neste sábado voltaram a falar em obter a maioria no Senado para impichar ministros da Corte e mandá-los para a cadeia. É a promessa da crise permanente,

Poderia perguntar o leitor inconformado com a linha de argumentação: “E quem liga para isso, Reinaldo? Nem mais os esquerdistas da imprensa…” Com algum humor, indago: quais?

A AGENDA
Desde o dia 5 de dezembro, Flávio tem sido blindado de si mesmo, de sua biografia, de seu passado, de sua história. Faz-se com Lula o oposto: o governo, como é natural, é escrutinado todos os dias. Em campanha, terá mais condições de expor suas realizações. O embate eleitoral ainda não entrou no território propriamente da agenda.

O que quer cada um? Li algumas apreciações bastante irônicas sobre o convite feito pelo presidente para que se operem comparações entre as realizações disso a que chamam “Lula 3” com as do governo Bolsonaro. Um cotejamento objetivo é amplamente favorável a essa gestão sob qualquer ponto de vista. Mas até Churchill teve a chance de constatar que o eleitorado nem sempre é justo. E Moisés então? E olhem que este tinha um cabo eleitoral poderoso… Fazer o quê? Cuidar da campanha.

Quais as respectivas respostas de Lula e Flávio — e dos outros que participarão dos debates — para o salário mínimo, para a Previdência, para a jornada de trabalho, para o Orçamento?

Os operadores do candidato do PL atuam com a certeza da vitória, entre outras razões, porque, no dizer de um deles, “pela primeira vez, a mídia está com a direita”. Falso. Não é a primeira vez. O plano delirante compreende, como se sabe, a maioria no Senado para impichar dois ministros do STF, além das três indicações a serem feitas pelo eleito nos quatro anos seguintes.

Seja na agenda econômica, seja na política, o verdadeiro Flávio está escondido num Flávio de ficção. Não estou a dizer que se vende gato por lebre. Vende-se lobo por cordeiro.

CAMINHO PARA O ENCERRAMENTO
Insista-se: as fotografias recentes das pesquisas têm sido ruins para Lula. O risco é virar filme, que é imagem em movimento. Os 40% de avaliação negativa e 29% de positiva não podem ser vistos sem os 26% de regular, que não quer dizer reprovação, mas vá tentar explicar: não e só difícil; é também inútil. O número relevante é outro: 51% desaprovam o trabalho do presidente, e 45% aprovam, índice que praticamente coincide com seu desempenho no segundo turno. Reitero: dado o contexto, trata-se de um bom ponto de partida.

Mas será preciso, como poderia dizer o historiador português José Mattoso, “desentranhar da realidade os fatos potenciais” para que se revele com clareza a natureza do confronto. Os postulantes têm suas respectivas histórias. Terão de ser revisitadas. E elas apontam para lugares. Tais lugares são retrospectivos, constituído de passados — tenham as iniciativas de cada um produzido todos os seus efeitos ou interceptadas por forças adversárias —, e prospectivos: aquilo que pode ser. O Brasil de Flávio teve um precedente: o de seu pai. O de Lula também: as suas respectivas gestões. A partida mal começou.


FONTE: Metrópoles

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