SAÚDE – Obesidade pode antecipar alterações cerebrais ligadas ao Alzheimer, apontam novos estudos

Pesquisas científicas recentes indicam que a obesidade pode provocar alterações cerebrais associadas à Doença de Alzheimer muitos anos antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos. Estudos publicados em periódicos internacionais indexados no PubMed mostram que o excesso de peso ao longo da vida está relacionado a mudanças em biomarcadores ligados à neurodegeneração, mesmo em indivíduos que ainda não apresentam qualquer sinal de comprometimento cognitivo.

De acordo com os pesquisadores, a obesidade não afeta apenas o sistema cardiovascular e o metabolismo, mas também pode impactar o cérebro de forma silenciosa e progressiva. A inflamação crônica, comum em pessoas com excesso de gordura corporal, estaria associada a danos neuronais graduais e ao aumento do risco de doenças neurodegenerativas. “O cérebro reage continuamente ao metabolismo do corpo. A obesidade crônica pode acelerar processos inflamatórios que prejudicam a função neuronal”, explica o médico nutrólogo Adriano Faustino, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade (SBEMO).

Entre os principais achados, os estudos apontam elevação de biomarcadores sanguíneos relacionados à neurodegeneração e à inflamação cerebral em pessoas com obesidade. Um deles é o Neurofilament Light Chain (NfL), proteína presente nos neurônios, cujos níveis elevados no sangue indicam dano neuronal precoce. Outro marcador é a Proteína Glial Fibrilar Ácida (GFAP), associada à inflamação das células gliais do cérebro. Segundo Faustino, esses indicadores reforçam a ideia de que o Alzheimer não surge de forma súbita, mas resulta de processos biológicos que podem se iniciar décadas antes do diagnóstico clínico, sendo o excesso de gordura corporal um fator que acelera esses mecanismos.

Pesquisas longitudinais que acompanharam milhares de adultos por períodos entre 10 e 12 anos analisaram dados metabólicos, composição corporal e biomarcadores cerebrais. Os resultados sugerem que a obesidade está associada ao aumento progressivo de marcadores de neurodegeneração mesmo em pessoas cognitivamente saudáveis. Além disso, alterações inflamatórias sistêmicas e resistência à insulina aparecem como possíveis elos entre o excesso de gordura corporal e os danos cerebrais. Os estudos também indicam que nem todos os biomarcadores clássicos do Alzheimer se alteram de forma uniforme, reforçando o caráter multifatorial da doença.

Especialistas ressaltam, no entanto, que a obesidade não significa, necessariamente, que uma pessoa desenvolverá Alzheimer. O que se observa é um aumento do risco e uma possível antecipação dos processos biológicos ligados à doença. Diante desse cenário, os resultados levantam a hipótese de que o controle da obesidade possa, no futuro, contribuir para reduzir o risco de demência ou retardar o declínio cognitivo. Medidas como mudanças sustentáveis no estilo de vida, controle metabólico precoce e a avaliação dos efeitos indiretos de medicamentos usados no tratamento da obesidade sobre a saúde cerebral estão entre as estratégias em estudo.

Com o envelhecimento acelerado da população mundial e o avanço da obesidade em níveis considerados epidêmicos, a Doença de Alzheimer desponta como um dos maiores desafios de saúde pública do século. Para os especialistas, cuidar do metabolismo hoje pode representar um investimento direto na saúde cerebral no futuro. “Do ponto de vista clínico, qualquer intervenção que melhore o metabolismo, reduza a inflamação ou a resistência à insulina tem potencial de proteger o cérebro”, conclui Adriano Faustino.