
ANÁLISE – Wilson Pedroso critica estratégia digital do governo Lula após operação no Rio: “Algoritmo não muda opinião”
Para o analista político, investimento de R$ 450 mil em impulsionamento de postagens sobre segurança pública foi um erro
O consultor eleitoral e analista político Wilson Pedroso avaliou como “um erro estratégico de comunicação” a decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de investir mais de R$ 450 mil em impulsionamento de publicações nas redes sociais com conteúdo sobre segurança pública, poucos dias após a megaoperação do Governo do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, nos complexos do Alemão e da Penha.
A ação federal de mídia, realizada entre 29 de outubro e 1º de novembro, destinou recursos ao Instagram e ao Facebook para promover postagens com mensagens críticas à operação fluminense, considerada a mais letal da história recente do país, com 121 mortos.
“O governo aplicou quase meio milhão de reais tentando construir uma narrativa digital sobre segurança pública, mas essa estratégia pegou mal junto à opinião pública e à imprensa”, afirmou Wilson Pedroso. “Comunicação é essencial, mas altos investimentos precisam ser muito bem justificados.”
Segundo o analista, a reação popular no Rio de Janeiro seguiu caminho oposto ao do Palácio do Planalto. “No início, as imagens dos corpos perfilados chocaram a população, mas à medida que as informações vieram à tona e o governo estadual apresentou dados indicando que a maioria dos mortos tinha envolvimento criminal, o apoio à operação cresceu”, explicou.
De acordo com pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 1º de novembro, 64% dos fluminenses aprovaram a operação, incluindo moradores de comunidades. Outra sondagem mostrou que a aprovação do governador Cláudio Castro (PL) subiu 10 pontos percentuais entre agosto e o fim de outubro, impulsionada pelo episódio.
“Enquanto o Rio de Janeiro assumia a narrativa e consolidava a imagem de eficiência, o Governo Federal ficou em posição de coadjuvante, quase como um figurante”, avaliou Pedroso.
O governo Lula, segundo ele, temia o impacto negativo da operação sobre sua imagem, especialmente em um momento de boa avaliação popular. “Para tentar virar o jogo, a equipe do presidente correu para as redes com campanhas pagas. Um dos posts dizia que ‘matar 120 pessoas não adianta nada no combate ao crime’, defendendo ‘mais inteligência e menos sangue’. Outros falavam do PL Antifacção e da PEC da Segurança Pública, bandeiras do Executivo para reforçar a integração das polícias”, detalhou.
Apesar disso, a estratégia acabou gerando reação contrária. “O mesmo governo que chamou a operação de ‘matança’ resolveu investir pesado em publicidade digital. E deu errado”, afirmou.
Para Wilson Pedroso, o episódio evidencia uma lição fundamental sobre comunicação política:
“Não se ganha no feed a batalha perdida na rua. Dinheiro compra resultado de algoritmo, mas não constrói narrativa nem forma opinião. O eleitor não quer discurso, ele quer propósito e ação.”
Wilson Pedroso é consultor eleitoral e analista político, com MBA em Gestão e Marketing, e sócio-estrategista do Instituto de Pesquisa Realtime Big Data.

