
BRASIL – Oito anos após rompimento de barragem, estudo aponta danos contínuos à população e insatisfação com medidas de reparação.
O estudo, conduzido pela Associação Estadual de Defesa Ambiental (Aedas), ouviu 1.873 pessoas pertencentes a cerca de 600 famílias. Os resultados preliminares mostram que mais de 80% dos entrevistados acreditam que ainda são necessárias medidas para garantir trabalho, geração de renda e promoção da saúde. Além disso, mais de um terço dos afetados afirmam não ter tido acesso a nenhum programa de reparação, e 56,31% citaram a desvalorização de patrimônios no mercado imobiliário.
O rompimento da barragem ocorreu em 5 de novembro de 2015, causando a morte de 19 pessoas e impactando diversas cidades em Minas Gerais e no Espírito Santo. Desde então, um acordo foi assinado entre o governo federal, os governos estaduais, a Samarco e suas acionistas para reparar os danos causados pela tragédia. Foi criada a Fundação Renova, que é responsável por mais de 40 programas de reparação, com os custos sendo arcados pelas mineradoras.
No entanto, passados oito anos, muitos afetados ainda se sentem insatisfeitos com o processo de reparação e milhares de ações judiciais foram movidas. Desde o ano passado, estão em curso negociações para um novo acordo, mas ainda não houve consenso entre as partes.
O estudo da Aedas, chamado Registro Familiar, teve como objetivo avaliar os efeitos do rompimento da barragem após oito anos. O levantamento revela que a qualidade da água do Rio Doce está diretamente ligada aos problemas mencionados pelos entrevistados. A pesca, que antes era uma fonte de renda e alimento, foi severamente afetada, e os produtores rurais que dependem do rio para irrigação observaram uma diminuição na produtividade das plantações.
Outro aspecto analisado no estudo é o impacto de gênero. Mais de 75% dos entrevistados relataram que as atividades e tarefas realizadas pelas mulheres aumentaram após o rompimento da barragem. A coordenadora institucional da Aedas, Franciele Vasconcelos, destaca que as mulheres não têm sido consideradas como sujeitos autônomos nos processos de reparação e ficam em desvantagem em relação às ações de compensação.
A Fundação Renova, em nota, afirma que já destinou R$ 32,66 bilhões às ações de reparação e compensação até agosto de 2023. No entanto, os resultados do estudo mostram que 75% dos entrevistados não receberam o auxílio emergencial e 97,65% não foram consultados previamente sobre as medidas de reparação que envolvem emprego e renda.
Para marcar os oito anos da tragédia, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) lançou a campanha Revida Mariana, compartilhando histórias pessoais relacionadas à tragédia. Produtores rurais e pescadores relatam a perda de gado, a falta de água potável e a diminuição da produtividade da terra.
O MAB também chama a atenção para o 4º Relatório Anual do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática, elaborado pela Universidade Federal do Espírito Santo. O relatório aponta 295 impactos relacionados ao rompimento da barragem no rio, mas a Fundação Renova argumenta que é preciso interpretar os resultados com cautela e integrá-los a outros estudos para um melhor entendimento da situação.
Em suma, o estudo realizado pela Aedas revela que, oito anos após o rompimento da barragem da Samarco, os efeitos negativos persistem e afetam diretamente a renda e a saúde dos atingidos. A população local ainda enfrenta dificuldades com a falta de peixes, a baixa produção agrícola e a desvalorização de patrimônios. O processo de reparação ainda é alvo de insatisfação, com milhares de ações judiciais em andamento. Os resultados do estudo apontam para a necessidade de medidas adicionais para garantir trabalho, geração de renda e promoção da saúde.









