
BRASIL – Política de guerra às drogas intensifica onda de violência na Bahia, dizem especialistas
Nos últimos meses, a violência tem se intensificado, com confrontos entre forças de segurança e criminosos resultando na morte de cerca de 60 pessoas, incluindo um policial federal. O diretor-executivo da ONG Iniciativa Negra e coordenador da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, Dudu Ribeiro, explica que nos últimos anos houve uma reorganização das organizações criminosas que já atuavam no estado, resultando em disputas territoriais acirradas. Ele destaca que a insistência na guerra às drogas fortalece essas organizações, já que sua capacidade de recrutar mais indivíduos está relacionada ao superencarceramento e à falta de oportunidades de vida para a população.
Ribeiro defende a adoção de uma abordagem mais centrada na prevenção e na ampliação do acesso a direitos, ao invés de um modelo militarizado de segurança. Ele critica a ideia de que a segurança pública se faz com violência e aponta a necessidade de envolver outras secretarias, como educação, cultura e direitos humanos, no debate sobre segurança pública.
O professor Luís Flávio Sapori, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Segurança Pública da PUC Minas, ressalta que a disputa entre facções e a política de segurança voltada para o confronto têm levado a uma busca por armamentos mais pesados por parte dos criminosos. A quantidade de fuzis apreendidos na Bahia este ano já chega a 48. Sapori alerta para o crescimento do poderio bélico das organizações criminosas e a consequente escalada da violência, resultando em um maior número de mortes.
O modelo de guerra às drogas é alvo de críticas tanto de Ribeiro quanto de Sapori. Eles argumentam que esse modelo não garante a segurança da população e acaba perpetuando a opressão racial sobre a população negra. A ausência de políticas públicas em áreas como educação, saúde e saneamento facilita o avanço das facções nos bairros periféricos e contribui para a estigmatização das pessoas que vivem nessas regiões.
Diante desse cenário de alta letalidade policial, a Anistia Internacional Brasil criticou o governo da Bahia pelas mortes ocorridas durante operações policiais. A polícia baiana se tornou a mais letal do país, com 1.464 mortes decorrentes de intervenções policiais apenas este ano. Sapori ressalta que matar criminosos não reduz a violência e alerta para a retroalimentação do ciclo de violência entre a polícia e o tráfico de drogas.
Diante desses desafios, o Conselho Estadual de Proteção aos Direitos Humanos decidiu realizar uma audiência pública para debater as políticas públicas de enfrentamento à letalidade policial na Bahia. A ideia é buscar alternativas ao modelo de guerra às drogas e promover a segurança por meio da prevenção e do acesso a direitos básicos para a população.









