BRASIL – Pesquisa revela que quase metade das discussões em fóruns anônimos de internet contêm termos violentos contra mulheres. Em discussões sobre pornografia, índice sobe para 69%.

Um levantamento realizado pela consultoria de dados digitais Timelens, a pedido do Instituto Avon, revelou que quase metade das discussões sobre mulheres em fóruns anônimos de internet são marcadas por termos violentos. Especificamente em debates sobre pornografia, esse índice sobe para 69%.

A pesquisa analisou 9,5 milhões de posts em 10 chans (fóruns anônimos) e 47 aplicativos de mensagens. Vale destacar que a participação feminina é praticamente inexistente nesses espaços, representando apenas 0,3% dos posts examinados.

Chama atenção também o número de comentários relacionados à divulgação não consensual de fotos íntimas, conhecidas como “nudes”. No período entre junho de 2021 e junho de 2023, foram mapeados quase 18 mil comentários sobre esse tema.

Em entrevista à Agência Brasil, a diretora executiva do Instituto Avon, Daniela Grelin, alertou para o crescimento alarmante do volume de mensagens nos fóruns anônimos, que proíbem a participação de mulheres. Entre 2021 e 2023, o número de mensagens evoluiu de 19 por semana para 228 por hora, totalizando 38,3 mil posts por semana. Segundo a executiva, essa expansão é preocupante.

Os chans são espaços anônimos de comunicação disponíveis em páginas da internet que não são identificadas pelos mecanismos de busca. Esses fóruns estão se tornando cada vez mais populares no Brasil. Os frequentadores costumam usar esses espaços como palco para perpetrar ataques contra influenciadoras, celebridades e pessoas com visibilidade no meio virtual. Algumas dessas vítimas chegam a receber ameaças de morte.

Daniela ressaltou a importância de investigações científicas para compreender o funcionamento desses fóruns anônimos e como eles podem levar a violência do ambiente virtual para o mundo real. Ela citou casos recentes no Brasil, como o ataque na escola de Suzano, onde os autores eram frequentadores de chans. Segundo Daniela, muitos desses atiradores escolhem como alvo meninas que consideram “não virgens”, exemplificando a desumanização da mulher presente nesses espaços.

A pesquisa teve como objetivo mapear discursos misóginos e práticas de violência contra mulheres nos chans. Daniela ressaltou que é necessário olhar para as medidas adotadas por outros países para coibir esse tipo de violência, citando o exemplo da França. Ela também defendeu que as plataformas sejam responsabilizadas para reduzir a veiculação de conteúdos misóginos.

O ódio e o desprezo pelas mulheres, conhecido como misoginia, pode se manifestar de diversas formas, como a exclusão social, discriminação sexual, hostilidade e violência física. Nos chans, as mulheres são retratadas como objetos de satisfação sexual e são chamadas de “depósito” de esperma.

A indústria da pornografia também foi mencionada como parte desse contexto, sendo uma indústria bilionária que promove a violência e a desumanização da mulher. Os chans, por sua vez, possuem um alto grau de sofisticação e, quando um é fechado, surgem outros em seu lugar. Daniela defendeu a necessidade de investigação para entender a dinâmica desses espaços e uma ação conjunta envolvendo polícia científica, ciência de dados e educação para conscientizar os jovens sobre as consequências dessas práticas.

A pesquisa também mapeou características dos frequentadores dos chans estudados, revelando que a maioria é composta por homens heterossexuais, entre 14 e 40 anos, com maior incidência na faixa etária de 20 a 24 anos. Esses frequentadores se identificam politicamente como conservadores, expressam dificuldades socioafetivas e sentem rejeição em relação às mulheres. Além disso, utilizam expressões racistas e machistas e demonstram posicionamentos misóginos e de incitação à violência em seu vocabulário.

O levantamento realizado pelo Instituto Avon revela a gravidade da misoginia e da violência contra mulheres presentes nos fóruns anônimos de internet. É necessário um esforço conjunto para combater e responsabilizar essas práticas, tanto por parte das autoridades quanto das plataformas digitais.