BRASIL – “Câmara Municipal de São Paulo realiza ato em memória dos desaparecidos e mortos durante a ditadura militar”

Na noite de hoje (4), a Câmara Municipal de São Paulo realiza um ato em memória dos desaparecidos e mortos durante a ditadura militar, que completam 33 anos desde a descoberta de uma vala clandestina com mais de 1 mil ossadas humanas, encontrada em 4 de setembro de 1990 no Cemitério Dom Bosco, bairro de Perus. Essas pessoas foram enterradas como indigentes, mas a maioria possuía uma ficha com nome e filiação. Até 2020, apenas cinco ossadas haviam sido identificadas.

O Instituto Vladimir Herzog destaca a relevância dessa data e o crime não encerrado da ditadura militar. Em seu site, dedicado a contar a história da Vala de Perus, a entidade oferece um livro gratuito sobre o assunto. Segundo o Instituto, os restos mortais das vítimas ficaram armazenados inadequadamente por anos, dificultando seu reconhecimento. Além disso, durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro, os pesquisadores enfrentaram impedimentos para identificar as vítimas, já que a atividade é conduzida pelo governo federal e regulada por um processo na Justiça federal.

O Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é uma das instituições responsáveis por realizar a identificação das vítimas. Apesar dos obstáculos, o CAAF-Unifesp conseguiu concluir a primeira etapa do trabalho, coletando amostras de DNA que foram enviadas para especialistas na Holanda. Agora, a equipe aguarda um novo acordo do governo para dar continuidade à segunda etapa, que envolverá a análise de amostras com material de mais de uma pessoa.

Uma das ossadas já identificadas é a de Aluísio Palhano, preso no antigo DOI-Codi, e de Dimas Antônio Casemiro, que se tornou militante socialista influenciado pelo pai. O Instituto Vladimir Herzog lembra a descoberta feita pelo jornalista Caco Barcelos, que encontrou laudos referentes a encaminhamentos feitos pelo Dops, com a marcação “T” feita à mão com lápis vermelho, que indicava “terrorista”.

Carla Osmo, coordenadora do CAAF-Unifesp, destaca que muitas vítimas eram de periferias e até hoje não se sabe ao certo quem são: “a Vala de Perus é uma das maiores evidências da imensidão da atrocidade da ditadura brasileira”. Ela defende que o Estado cumpra seu dever quanto à identificação das vítimas e estruture um memorial de homenagem, dando voz aos pesquisadores, familiares, comunidade de Perus e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

É fundamental que se lembre que muitas famílias ainda não puderam fazer uma despedida digna para seus entes queridos que foram vítimas da violência de Estado durante a ditadura militar. Este ato em memória dos desaparecidos e mortos é uma forma de reafirmar o compromisso com a verdade e a justiça, além de trazer à tona a importância de reconhecer e enfrentar o passado para garantir que tais violações dos direitos humanos jamais se repitam em nosso país.