
Expansão da Faixa Azul para motos trava no Ministério dos Transportes
A implementação da Faixa Azul para motos não avança em São Paulo. Desde janeiro de 2025, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) aguarda autorização para não só implementar a sinalização em novas avenidas, mas também a renovação da permissão para manter o projeto por mais um ano.
Desde então, a prefeitura está sem respostas por parte da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), órgão que faz parte do Ministério de Transportes, até 1º de abril comandado pelo então ministro Renan Filho (MDB), da ala lulista do partido
Vitrine eleitoral do prefeito em 2024, a Faixa Azul para motos foi implementada em caráter experimental em São Paulo em 2022. A autorização para o projeto chegou ao fim em março de 2026.
No processo de renovação da permissão, a prefeitura deve enviar um Relatório Consolidado com análise técnica do funcionamento da faixa até o fim deste mês. A partir daí, a Senatran irá avaliar, sem estipular prazo da resposta, a eficiência da implantação da sinalização experimental, se houve redução ou aumento do número de sinistros e de mortes com motociclistas nas vias implantadas e a evolução desses eventos ao longo do período de testes.
Caso a medida seja considerada ineficaz pela secretaria, a Faixa Azul para motos deverá ser retirada. Até que a resposta seja informada, o município poderá manter a sinalização ativa nas vias onde foi implantada.
“Gostam de sangue”
A última inauguração da faixa para motos foi em julho do ano passado, na Avenida Jacu-Pêssego, na zona leste da capital paulista. Nunes avalia haver questões políticas por trás da demora da Senatran.
Na última quarta-feira (8/4), por exemplo, durante a entrega de uma área de descanso para motoboys, o prefeito questionou a demora das autorizações.
“Nós temos lá em Brasília o pedido para mais 80 quilômetros da Faixa Azul. Tem pedido lá em Brasília para o Governo Federal, há um ano, há dois anos, e eles não autorizam. Se é algo que a prefeitura está pagando, que a prefeitura está fazendo para dar segurança para vocês, para garantir mais tranquilidade na locomoção, por quê o governo federal não autoriza? Um projeto que é aprovado, que todo mundo sabe da importância, e que a gente hoje tem 233 quilômetros, poderíamos ter agora 340 quilômetros, e eles não autorizam. Por pura birra, [eles] gostam de sangue”.
Aliados do prefeito também afirmam tratar-se de uma questão política, como o presidente da Câmara Municipal, Ricardo Teixeira (União). Ele foi um dos autores do projeto na capital paulista.
“Parece que é uma burrice. Tem 80 quilômetros de projeto pronto lá no Senatran e eles não aprovam. E nesses 80 quilômetros, nem pintura não tem nada, está morrendo gente. Então, é muito esquisito, né? É muito estranho funcionar desse jeito.”
Durante o lançamento da Faixa Azul em 2023, o então ministro Renan Filho afirmou que a criação dos corredores poderia se tornar uma política de trânsito nacional, caso os estudos apresentados pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) assim indicassem.
O atual secretário da Senatran, Adrualdo Catão, foi secretário-executivo do Gabinete Civil do estado alagoano na gestão de Renan. De 2018 a 2022, foi diretor-presidente do Departamento Estadual de Trânsito de Alagoas (Detran-AL).
Estudos contestam Prefeitura
Recentemente, estudos da CET mostraram que a Faixa Azul não reduziu mortes, como alegado pela prefeitura, e que a sinalização incentiva abuso de velocidade com motos.
A gestão municipal tem destacado que as pesquisas da CET apontam uma redução de 47% nas mortes nas ruas e avenidas em que o projeto foi implementado na comparação entre 2023 e 2024. Mas essa conta — que não aparece no estudo da CET — considera somente os motociclistas e ignora o impacto para os pedestres. As mortes causadas por atropelamento mais do que triplicaram nas vias com a Faixa Azul.
Um segundo estudo, feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Ceará (UFC) e Instituto Cordial, com apoio da organização Vital Strategies, mostra que faixa exclusiva para motos aumenta em até 120% o risco de acidentes fatais com motociclistas em cruzamentos.
A sinalização também faz com que a velocidade média nessas vias passe de 58,3 km/h para 72,2 km/h, por transmitir sensação de mais segurança aos condutores, que abusam do acelerador.
Em nota, a Senatran afirmou que autorização para implantação está condicionada ao cumprimento integral de critérios, que são analisados no processo, com foco na segurança viária e na adequação ao contexto local.
“Após a implementação, a Senatran acompanha os resultados com base nos dados enviados pelos municípios. São avaliados indicadores como ocorrência de sinistros e número de óbitos de motociclistas, além da evolução desses dados ao longo do período experimental. Também são consideradas informações qualitativas, com o objetivo de verificar a efetividade da medida e a eventual necessidade de ajustes nos requisitos técnicos”, diz o texto.
FONTE: Metrópoles














