EDITORIAL – A decadência de Collor e o naufrágio da TV Gazeta

Poucos símbolos revelam com tanta clareza a decadência de Fernando Collor de Mello quanto o atual enredo da TV Gazeta de Alagoas. A emissora, criada sob o signo do prestígio político e econômico da família Collor, chega aos seus 50 anos sem o principal ativo que a sustentava: a parceria com a Rede Globo.

Por meio século, a Gazeta foi vitrine local da maior emissora do país, com acesso garantido à audiência e ao poder de influência que esse selo nacional carregava. O rompimento, anunciado em 27 de setembro, não apenas encerrou uma longa história, mas expôs a fragilidade de um império midiático erguido em torno de Collor. A emissora, hoje, resiste com programação local e presença digital limitada, enquanto a TV Asa Branca, de Pernambuco, assumiu o posto de retransmissora da Globo em Alagoas — ainda que enfrentando críticas pela precariedade técnica do sinal.

Nesse vácuo, a Gazeta tenta negociar com a Rede Bandeirantes. Trata-se de um movimento de sobrevivência, que busca reposicionar a emissora no mercado e evitar sua irrelevância. Mas a negociação ocorre em meio a um contexto ainda mais delicado: um processo administrativo no Ministério das Comunicações ameaça a própria concessão da TV e da rádio Gazeta, em razão da participação societária de Collor e de outros sócios impedidos de gerir concessões públicas. Em outras palavras, mesmo que consiga firmar a afiliação, a emissora pode não ter futuro garantido.

O colapso da TV Gazeta é mais do que um episódio empresarial. É a metáfora de uma trajetória política e pessoal que, após o auge da presidência e a queda pelo impeachment, jamais conseguiu se reerguer plenamente. Collor, outrora apresentado como o “caçador de marajás”, hoje é figura lateral na política e vê sua herança midiática ruir diante de mudanças que não controla.

A decadência da Gazeta, portanto, não é apenas a decadência de uma emissora. É o retrato de um ciclo que se encerra, marcado pelo esgotamento da influência de Collor em Alagoas e pela incapacidade de manter vivo um projeto de poder que já não dialoga com o presente.