Transparência ferida no coração da democracia
A decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE/AL) de desaprovar as contas de campanha de Rodrigo Cunha e de sua vice nas eleições de 2022 não pode ser tratada como mero detalhe burocrático. O que está em jogo aqui é a credibilidade do processo eleitoral e, sobretudo, a confiança da sociedade em seus representantes.
As irregularidades apontadas — ausência de comprovação de serviços, omissão de despesas e desvio de recursos destinados a políticas afirmativas — não são falhas banais. Elas revelam descuido, quando não descaso, com a lisura que se exige de quem almeja governar. Mais grave ainda é a utilização indevida de verbas públicas que deveriam beneficiar candidaturas comprometidas com a diversidade e a inclusão, desviadas para fins que não se enquadravam no propósito legal.
A devolução de R$ 83,5 mil ao Tesouro Nacional é, sem dúvida, uma medida necessária. Mas, diante do impacto que o financiamento eleitoral tem na disputa política, fica a pergunta: será suficiente? A democracia perde quando candidatos podem lançar mão de recursos de forma irregular e, ao final, arcar apenas com a restituição do valor. O dano político — a vantagem obtida durante a campanha — não se desfaz com o simples ressarcimento.
Rodrigo Cunha, que se apresenta como renovador da política alagoana, deveria ter sido o primeiro a zelar pela transparência de sua campanha. O eleitor que deposita seu voto espera coerência entre discurso e prática. Quando essa coerência falha, quem sai enfraquecida é a própria democracia.
É preciso cobrar dos partidos, candidatos e instituições mais do que a devolução de cifras. É preciso cobrar responsabilidade, ética e respeito à lei. O episódio serve de alerta: não se constrói um Estado democrático sólido sobre contas nebulosas.

