BRASIL – Banco do Brasil é alvo de estudo que aponta envolvimento no comércio de escravos, conforme documento do MPF.

O Banco do Brasil (BB), tradicionalmente uma das maiores instituições públicas do país, encontra-se sob investigação sobre seu possível envolvimento no comércio de escravizados durante o século XIX. Um estudo elaborado por 14 pesquisadores de universidades brasileiras e americanas, sob a supervisão do Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro, foi entregue ao banco durante a última semana. O documento aponta para o possível apoio da instituição financeira ao tráfico de escravos no século XIX, considerando como principal motivação a garantia de empréstimos lastreados na propriedade escrava.

Os pesquisadores aguardam uma resposta do banco, que terá 15 dias úteis para se manifestar sobre as acusações. No entanto, vale ressaltar que o BB já se posicionou sobre o caso, afirmando em comunicado oficial que “lamenta profundamente esse infeliz capítulo da história da humanidade e da nossa sociedade, com efeitos de um triste legado até os dias atuais”. A instituição também enfatizou que valoriza o trabalho de historiadores e mantém aberto ao público um arquivo histórico disponível para pesquisas.

Durante o século XIX, o Banco do Brasil foi refundado em 1853, após a Lei Feijó de 1831 ter proibido o tráfico de escravos, mas esta proibição não foi efetivamente cumprida. A pesquisa indica que grandes acionistas e diretores do banco estavam diretamente envolvidos na propriedade de escravos, como é o caso de José Bernardino de Sá, barão e visconde de Vila Nova do Minho, que foi um dos maiores traficantes do Atlântico Sul para o Brasil. Tais fatos levam os acadêmicos a concluir que “boa parte do capital que constituiu o maior banco do Império era oriundo do tráfico e dos negócios da escravidão”.

Além disso, a pesquisa destaca que o banco pode ter tido em seu quadro acionário abolicionistas de destaque no cenário nacional. Rodrigo Augusto da Silva, autor da Lei Áurea, e Affonso Pena, ex-presidente da República e do próprio banco, são citados como possíveis acionistas, o que “mostra-se relevante na busca da verdade”, segundo o comunicado oficial do BB.

O tema, mesmo relacionado ao século XIX, tem impacto no debate atual sobre o racismo e a necessidade de políticas de reparação à população negra no Brasil. O MPF já se reuniu com ativistas do movimento negro para buscar ideias de reparação a serem oferecidas pelo banco, cuja atuação no passado tem reflexos na sociedade atual. Assim, o banco se encontra diante de uma investigação que pretende revisar parte da história do Brasil e lidar com as consequências legadas por esse triste período da escravidão no país.