
BRASIL – “Concentração de vegetação nativa do Cerrado em terras privadas preocupa ambientalistas, aponta levantamento do Ipam”
Essa concentração da vegetação nativa em propriedades privadas se deve, em parte, ao Código Florestal, que permite aos proprietários desmatar até 80% do Cerrado. Esse cenário torna mais urgente a necessidade de proteger e preservar a vegetação nativa que ainda resta no bioma.
Análises de dados de satélite feitas pelo MapBiomas mostram que 85% do desmatamento do Cerrado entre 1985 e 2022 aconteceram em terras privadas. Atualmente, estima-se que apenas 48% da vegetação nativa original do bioma ainda exista.
A expansão do agronegócio, especialmente nos estados do Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí, indica que o desmatamento no Cerrado continuará em alta. Segundo o MapBiomas, as áreas de pecuária e agricultura nesses estados cresceram 252% e 2.199%, respectivamente, entre 1985 e 2022.
A preocupação reside no fato de que apenas 12% do Cerrado nativo está protegido em unidades de conservação e terras indígenas. Com o direito legal de desmatar, há o receio de que os proprietários privados acabem com a maior parte da vegetação nativa que ainda resta.
Além disso, 13% do Cerrado nativo foi identificado como “vazio fundiário”, ou seja, áreas sem informações disponíveis. Esses dados foram sistematizados pelo Ipam a partir do Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) e do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
A concentração da vegetação nativa do Cerrado em terras privadas é preocupante devido ao baixo nível de proteção legal do bioma. No entanto, o mercado tem pressionado cada vez mais por uma produção livre de desmatamento e com menor impacto ambiental. Essa pressão pode ser uma aliada importante na redução da pressão sobre os remanescentes de Cerrado nativo dentro de propriedades rurais.
A diretora de Ciência do Ipam e coordenadora do MapBiomas Cerrado, Ane Alencar, ressaltou a importância do papel do Poder Público na fiscalização do cumprimento das regras e melhorias nos procedimentos de autorização do desmatamento.
Proteger o Cerrado é essencial não apenas para o meio ambiente, mas também para a manutenção da vida humana e da atividade econômica do Brasil. O Instituto Cerrados alertou que a mudança na legislação para proteger mais o bioma é fundamental. A água, principal insumo da economia brasileira, é fornecida em grande parte pelo Cerrado. Crises hídricas nos últimos anos têm prejudicado a produção energética e o abastecimento de cidades como São Paulo e Brasília.
É necessário garantir uma maior proteção da vegetação nativa do Cerrado em cada propriedade rural. O ambiente político atual não favorece uma mudança significativa, mas o enfrentamento político tem um custo menor do que a falta d’água, que já é uma realidade. Entre 1985 e 2022, a vazão dos rios do Cerrado diminuiu em média 15,4%.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, defendeu o desmatamento zero no Cerrado. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) revelou que o bioma perde vegetação nativa cinco vezes mais rápido do que a Amazônia.
Portanto, é necessário agir com urgência para proteger o Cerrado e garantir a preservação desse importante bioma, não apenas pela sua rica biodiversidade, mas também pela importância econômica e hídrica que ele representa para o país. O Poder Público e a sociedade como um todo devem se unir nessa luta pela conservação do Cerrado.









