
BRASIL – Segundo o Dieese, greves atingem menor nível em uma década, indicando possível redução de conflitos trabalhistas no país.
Dentre as greves realizadas em 2023, a maioria foi protagonizada por funcionários do setor público, representando 60,8% dos movimentos. Já os trabalhadores das empresas privadas organizaram 37,5% das paralisações, enquanto 1,8% envolveram as duas categorias de trabalhadores.
A principal motivação para as greves foi o reajuste salarial, que representou 41,6% das reivindicações, seguido pelo pagamento do piso salarial para as categorias, com 32,8%. Melhoria das condições de trabalho (21,5%) e pagamento de salários em atraso (20,1%) também foram demandas significativas dos trabalhadores. Em 65% dos casos, houve pelo menos um atendimento parcial às demandas apresentadas.
No setor público, a maior parte das greves foi promovida por funcionários municipais (74%), seguidos pelos servidores estaduais (20,7%) e federais (4,3%). O reajuste salarial e o pagamento dos pisos de categoria continuam sendo as principais reivindicações nessas mobilizações, presentes em 54,5% e 52,3% dos movimentos, respectivamente. No entanto, a melhoria das condições de trabalho ganhou maior importância, estando presente em 30% das pautas, juntamente com a demanda por melhores serviços públicos, que foi reivindicada em 27,9% das greves.
Já no setor privado, 49,3% das mobilizações tiveram como motivação o pagamento de salários em atraso. As demandas relacionadas à alimentação, como pagamento de vales e auxílios, ocuparam o segundo lugar em importância, estando presentes em 36,4% dos movimentos, enquanto os pedidos de reajuste salarial apareceram em terceiro lugar, sendo mencionados em 23,4% das greves.
Segundo o sociólogo do Dieese, Rodrigo Linhares, a redução do número de greves pode ser atribuída, em parte, à sensação de insegurança dos trabalhadores devido às sucessivas crises dos últimos anos. Ele ressalta que “os movimentos de greves são sempre deflagrados tendo em conta uma expectativa plausível de ganho” e que “quando existe insegurança no ar, isso já é um motivo para que nas assembleias trabalhadores de empresas privadas ou do Estado fiquem mais reticentes na hora de votar a deflagração de uma greve”.
Além disso, Linhares aponta que as reformas trabalhista e sindical também impactaram a capacidade dos sindicatos de promover mobilizações e negociações, uma vez que essas medidas resultaram na diminuição de recursos e na dispensa de funcionários e assessores.
Outro fator que contribui para esse cenário é a crescente privatização dos serviços públicos, por meio das terceirizações. Essas privatizações afetam setores como saúde e limpeza urbana, resultando em depreciação dos serviços, desrespeito às leis trabalhistas e más condições de trabalho. Um exemplo citado pelo sociólogo é a administração das linhas 8 – Diamante e 9 – Esmeralda do sistema de trens metropolitanos de São Paulo, que desde janeiro de 2022 são administradas pela Via Mobilidade. Nesse caso, a empresa assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público de São Paulo que prevê o pagamento de uma indenização por danos materiais e morais coletivos de R$ 150 milhões.
Diante desse cenário, o governo de São Paulo já está se preparando para fazer novas concessões de linhas de trens e metrô por meio de 11 leilões programados até 2026. A expectativa é de que essas privatizações enfrentem resistência e possam motivar novas mobilizações por parte dos trabalhadores.









