
BRASIL – O alto valor dos cigarros contribui para o aumento de jovens fumantes.
A pesquisa foi realizada em parceria com a Universidade de Illinois, em Chicago, Estados Unidos, e publicada na revista Tobacco Control, uma das principais revistas sobre controle do tabaco no mundo. O estudo aponta que a cada ano, o preço do cigarro vai perdendo o seu valor real e fica mais acessível para a população, o que favorece a iniciação precoce no fumo, principalmente entre os jovens e adolescentes.
De acordo com o médico André Szklo, estudioso da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca e autor do estudo, a falta de reajuste dos preços é uma estratégia que acaba casando com a pressão da indústria para manter o preço baixo e inibir o contrabando. No entanto, essa estratégia tem consequências preocupantes, como o aumento na proporção de fumantes entre os jovens e adolescentes, especialmente as meninas.
O pesquisador ressalta que a população de adultos jovens e adolescentes, que não tem tantos recursos financeiros, é a que acaba se beneficiando desse preço baixo do cigarro, o que favorece a iniciação precoce no hábito de fumar. Ele destaca que a proporção de jovens adultos fumantes vinha recuando desde 1989, mas parou de cair, tornando-se um reflexo direto do enfraquecimento da política de preços e impostos, que são as principais diretrizes para prevenir a iniciação ao fumo.
O estudo também mostra que a relação entre o preço do cigarro legal e do cigarro ilegal está tão reduzida que quase se fundem. Mais de 25% das marcas ilegais vendidas no país estão sendo comercializadas a um valor igual ou levemente superior ao preço mínimo estabelecido por lei para os cigarros legalizados. O preço médio do cigarro adquirido por fumantes brasileiros alcança R$ 5,68, enquanto nos estados que fazem fronteira com o Paraguai, o valor cai para R$ 4,96.
Essa diferença de preço entre o cigarro legal e ilegal é tão pequena que tem reflexos graves na saúde da população. Atualmente, o Brasil gasta R$ 125 bilhões com doenças relacionadas ao uso de produtos derivados do tabaco, enquanto a arrecadação da indústria de tabaco não cobre nem 10% desse valor. Além disso, estudos indicam que dois em cada três usuários atuais de tabaco virão a morrer em decorrência do uso desses produtos.
Diante desse cenário, o pesquisador do Inca defende a retomada do aumento do preço do cigarro fabricado no Brasil, o aumento das alíquotas dos impostos que incidem sobre os produtos derivados do tabaco, o reajuste do preço mínimo estabelecido por lei e a implementação do Protocolo para Eliminar o Comércio Ilícito de Produtos de Tabaco. Ele também destaca a importância da reforma tributária em discussão no Congresso Nacional como uma oportunidade para fortalecer a necessidade do imposto seletivo sobre os produtos do tabaco.
Em resumo, o estudo realizado pelo Inca reforça a preocupação com o preço baixo do cigarro no Brasil, tanto o legal quanto o ilegal, e os impactos negativos que isso causa na saúde da população, principalmente entre os jovens e adolescentes. A falta de reajuste desde 2017 e a relação cada vez menor entre os preços do cigarro legal e ilegal são fatores que contribuem para a iniciação precoce no fumo e para o aumento do número de fumantes. Diante disso, o pesquisador defende medidas como o aumento do preço do cigarro, o aumento dos impostos e a implementação do protocolo de combate ao comércio ilícito de produtos de tabaco.









